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Resumo de Cadernos de João - Aníbal Machado

 

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Cadernos de João - Aníbal Machado
 
Tal forma de composição é a que melhor cabe no escritor, pois lhe dá liberdade para a expressão das inúmeras vozes que povoam o seu imaginário de artista sensível (é interessante notar que essa idéia é semelhante a um dos seus textos, “A Insurreição dos Internos”, em que o eu-lírico confessa estar dominado por inúmeros eus internos, todos malignos, e que sua única saída seria fazê-los sair).Abaixo se apontam algumas das temáticas e procedimentos comuns em Cadernos de João. Não se espera com esse esquema esgotar as possibilidades de interpretação dos textos da obra, mas apontar caminhos que podem ser seguidos ou não, aceitos ou não, para a sua compreensão. Além disso, não se deve perder de vista que algumas das classificações podem coincidir-se, enquanto outros textos podem pertencer a mais de uma. Um defeito muito comum a esse tipo de trabalho. Finalmente, não se deve esquecer que uma obra tão rica não pode se esgotar em esquematismos. Seria uma idéia por demais ofensiva.
Busca do Novo – Perfeitamente encaixado no espírito da fase heróica do Modernismo, Aníbal Machado busca sempre escapar à rotina por meio de uma forma diferente, inusitada de enxergar a realidade. Veja como isso se revela no excerto abaixo: DESCOSENDO O ESPAÇO
O pássaro agonizante põe pela boca os milhares de quilômetros que devorou pelos ares.
Considerações Filosóficas – Assumindo o posto de grande teórico do Modernismo, o autor derrama reflexões quase que doutrinárias, ou seja, com a preocupação de passar ensinamentos. É como ocorre abaixo:  Parece absurdo mas é compreensível que, no céu falso das vaidades endurecidas, o avanço de certas verdades tenha de ser protegido por um grupo de pequenas mentiras. 
O melhor momento da flecha não é o de sua inserção no alvo, mas o da trajetória entre o arco e a chegada – passeio fremente.Observe que a preocupação reflexivo-filosófica não impede a preocupação com a elaboração da linguagem, como na metáfora “céu falso das vaidades” e na antítese entre “verdades” e “mentiras” no trecho 1 e na prosopopéia em “passeio fremente” no trecho 2. Repare que tais considerações vão buscar mais uma vez e sempre o inusitado dos fatos. Narrações – Alguns textos contam histórias plenas de emotividade, algumas até de dramaticidade. Aproximam-se muitas vezes das crônicas narrativas. Descrições Poéticas – Ao contrário das descrições típicas, sua preocupação não é apenas caracterizar, tornar único o objeto descrito. Há também a intenção de tornar a linguagem ímpar. É o que se vê a seguir: A CASA ROUCA
Ficara o galo, sobrevivência da ruína. Rouco o seu canto. Canto que não parecia mais de galo, senão a própria voz da casa abandonada. Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.
Não mais agora figuras humanas entrando; apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.
Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou. E seu canto perdeu o timbre de sol, já não inaugura os dias. E se fez adequado aos estragos do reboco, à podridão das esquadrias – última secreção de pareces gemidas. Galo rouco. Casa rouca. O texto acima possui inúmeros exemplos de elaboração lingüística, mas o mais marcante é o que caminha para o cruzamento entre a idéia de casa e a de galo, a ponto de os dois possuírem o mesmo adjetivo, variando apenas o gênero: rouco/rouca. O silêncio de um equivale ao abandono e decadência da outra. 
Retratos de Personagens ­ - Em vários momentos, alguns com o mesmo título, pipocam descrições de figuras humanas. Vale aqui o que se observou em vários momentos desta análise: busca-se sempre o inusitado, o diferente, ou pelo menos um olhar novo sobre o velho. 
Lições para a Vida – Vários textos de Cadernos de João passam ensinamentos para um viver melhor que implica a valorização de um estado de simplicidade da existência em contato com os prazeres esquecidos em nosso cotidiano urbano, burguês e pragmático. É o que se pode ver em “O Banho das Cinco Esposas” ou abaixo:  Consumimos o melhor tempo da vida a apalpar o terreno, reunir dados, instalar sondas, armar os aparelhos, ajuntar material. Tudo para começarmos a viver. Quando se aproxima o dia da prova – que dia? que prova? – nossas armas estão caducas, o celeiro apodrecido. Vem-nos então a revolta contra as extorsões do tempo; depois, a desconfiança de que fomos logrados. E não nos conformamos em reconhecer que na longa prorrogação com que disfarçamos o nosso medo de viver estava a própria realização de nossa vida. 
Viver é o mesmo que preparar-se para viver. 
Metalinguagem – É uma constante na obra a análise sobre o ato de escrever, como se o escritor se voltasse sobre si mesmo ou se se enxergasse durante a sagrada ação da escritura. É o que percebemos no trecho a seguir: Retira do teu poema as estridências do grito, se queres que ele tenha mais alcance e ressonância. 
Note que sua postura, muitas vezes, é doutrinária, o que é justificável, já que se consagrou como um dos grandes teóricos do Modernismo. 
Imagens Surrealistas – Constante em toda a obra, a técnica de associar caótica e desconexamente idéias e palavras é uma das marcas registradas de Aníbal Machado. O escritor parece estar liberando todo o seu inconsciente, possibilitando imagens que são fruto do delírio, do sonho, do onírico. Epigramas – Seguindo o seu caráter doutrinário, o autor vaza em alguns momentos textos extremamente curtos, mas densos de reflexão. É o que acontece no exemplo abaixo. O homem que ri liberta-se. O que faz rir esconde-se. 
Teu inimigo de certo modo te pertence: é um dos teus aspectos.

 

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