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Pré - Modernismo - Jeca Tatu / Zé Brasil - Monteiro Lobato

 

Pré - Modernismo - Jeca Tatu / Zé Brasil - Monteiro Lobato

Características   

MONTEIRO LOBATO

José Bento Monteiro Lobato nasceu em São Paulo em 1882 e faleceu em 1948. 
Participou ativamente da vida cultural Brasileira e, ao morrer, deixou uma extensa obra, composta de contos, crônicas, ensaios, artigos e uma série de livros infantis que o tornaram popular.
Os principais estéticos de Monteiro Lobato enraizavam-se em autores "clássicos" da língua portuguesa não faltando purismo em sua língua literária. 
Essa formação impediu-o de assumir compromissos efetivos com o movimento ousado e renovador dos primeiros modernistas, que ele havia com desconfiança, temendo ser simples imitação de idéias estrangeiras. 
Mas a visão crítica da realidade brasileira, o nacionalismo lúcido e objetivo revelavam, sem dúvida a face moderna de Lobato, assegurando-lhe lugar de destaque nas histórias de nossa cultura. Monteiro Lobato foi o homem de mil atividades, tendo sido promotor, fazendeiro e jornalista: exerceu o cargo de adido comercial dos Estados Unidos e lutou ardentemente pela campanha da nacionalização do petróleo que acabou por levá-lo à cadeia por causa da pressão das empresas estrangeiras. 
Foi também um arrojado editor contribuindo com suas iniciativas para a dinamização do mercado editorial brasileiro.
De sua obra de ficção para adultos, merecem destaques os livros de contos Urupês (1918), Cidades Mortas (1919) e Negrinha (1920).Monteiro Lobato e Jeca Tatu Monteiro Lobato criou a personagem Jeca Tatu para denunciar, em tom irreverente e caricatural, a situação crítica em que vivia o nosso homem do interior. 
Em 1918, a figura do Jeca foi utilizada nos folhetos de propaganda do laboratório Fontoura, atingido imensa popularidade e contribuindo para criar uma imagem deformada do nosso sertanejo.
Em 1947, Lobato retomou essa personagem, encarando o problema, porém, de outro ângulo. 
Como atividade complementar deste capítulo, sugerimos que os alunos se organizem em grupos para analisar os textos de Lobato reproduzidos a seguir, que ilustram esses ângulos diferentes de consideração do problema. 
As questões propostas poderão servir roteiro para o trabalho.

Jeca Tatu

Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!
Jeca mercador, Jeca lavrador, Jeca filósofo...
Quando comparece às feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher - cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas; ou artefatos de taquarapoca - peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador; ou utensílios de madeira mole - gemelas, pilõezinhos, colheres de pau.
Nada Mais.
Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço - e nisso vai longe.
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Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores - nada revelador de permanência.
Há mil razões para isso: porque não é a sua terra; porque se o "tocarem" não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a "criação" come; porque....
_ Mas, criatura, com um vedozinho por ali ... A madeira está à mão o cipó é tanto...
Jeca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.
_ Não paga a pena.
Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra.
Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades.
De qualquer jeito se vive.

Zé Brasil
I - Zé Brasil era um pobre coitado. Nasceu e sempre viveu em casebres de sapé e barro, desses de chão batido e sem mobília nenhuma _ só a mesa encardida, o banco duro, o mocho de três pernas, os caixões, as cuias... Nem cama tinha.  Zé Brasil sempre dormiu em esteira de tábua. 
Que mais na casa? A espingardinha, o pote d’água, o caco de cela, o rabo de tatu, a arca, o facão, um santinho na parede. 
Livros, só folhinhas - para ver as luas e se vai chover ou não, e aquele livrinho na fontoura com a história do Jeca Tatu._ Coitado deste Jeca! - dizia Zé Brasil olhando para aquelas figuras - Tal Qual eu. 
Tudo que ele tinha, eu também tenho. A mesma opilação, a mesma maleita, a mesma miséria e até o mesmo cachorrinho. Pois não é que o meu cachorro também se chama Joli?...

II - A vida de Zé Brasil era a mais simples. Levantar de madrugada, tomar um cafezinho ralo ("escolha" com rapadura) , com farinha de milho (quando tinha) e ir para a roça pegar no cabo da enxada. 
O almoço ele o comia lá mesmo, levado pela mulher; arroz com feijão e farinha de mandioca, as vezes um torresmo ou um pedacinho de carne seca para enfeitar.  Depois, cabo da enxada outra vez, até a hora do café do meio dia. E novamente a enxada, quando não a foice ou o machado. 
A luta com a terra sempre foi brava. 
O mato não para nunca de crescer e é preciso derrubando as capoeiras e os capoeirões porque não há que se entregue tão depressa com as terras de plantação.
Na frente da casa, o terreirinho, o mastro de Santo Antônio. 
Nos fundos, o chiqueirinho com capadete engordando, a árvore onde dormem as galinhas e a "horta" - umas latas velhas num jirauzinho, com um pé de cebola, outro de arruda e mais remédios - hortelã, cidreira e etc.
No jirau, por causa da formiga.
_ Ah, estas formigas me matam! _ dizia o Zé com cara de desanimo. _ Comem tudo que a gente planta.
E se alguém da cidade, desses que não entendem de nada desta vida , vinha com historia de "matar formiga". 
Ze dizia: "Matar formigas!... Elas è que matam a gente. Isso de matar formiga sò para os ricos, e muito ricos. A formicida esta pela hora da morte _ e cada vez pior, mais falsificada. E que me adianta matar um formigueiro aqui neste sitio, se há tantos formigueiros nos vizinhos? Formiga vem de longe. Já vi um olheiro que ia sair a um quilômetro de distância. 
Suponha que eu vendo a alma, compro uma lata de formicida e mato aquele formigueiro ali do pastinho. Que adianta? As formigas do Chico Vira, que é meu vizinho deste lado, vem alegrinhas visitar as minhas plantas".

III - A gente da cidade _ como são cegas as gentes da cidades !... Esses doutores, esses escrevedores nos jornais, esses deputados, paravam ali e era só critica: vadio, indolente, sem ambição, imprestável... não havia o que não dissessem do Zé Brasil. Mas ninguém punha atenção nas doenças que derreavam aquele pobre homem _ opilações, sezões, quanta verminose há malária. E cadê doutor? Cadê remédio? Cadê jeito? 
O jeito era sempre o mesmo: sofrer sem um gemido e ir trabalhando doente mesmo, até não agüentar mais e cair como cavalo que afrouxa. 
E morrer na velha esteira _ e feliz se houver por ali alguma rede em que o corpo vá para o cemitério, senão vai amarrado com cipó.
_Mas você morre, Zé, e sua alma vai para o céu _disse um dia o padre _ e Zé duvidou.
_ Está aí uma coisa que só vendo! Minha idéia é que nem deixam minha alma entrar no céu. Tocam ela de lá, como aqui na vida o coronel Tatuira já me tocou das terras dele.
_ Por que, Zé?

IV - Eu era "agregado" na fazenda do Taquaraí. O coronel me deu lá uma grota, fiz minha casinha, derrubei mato, plantei milho e feijão.
_De meias?
_ Sim. Metade para o coronel, metade para mim.
_ Mas isso dá, Zé?
_ Dá para a gente ir morrendo de fome pelo caminho da vida - a gente que trabalha e planta. 
Para o dono da terra é o melhor negócio do mundo. Ele não faz nada, de nada, de nada, de nada. 

Não fornece nem uma foice, nem um vidrinho de quina para sezão - mas leva metade da colheita, e metade bem medida - uma metade gorda; a metade que fica com a gente é magra, minguada... E a gente tem de viver com aquilo um ano inteiro, até que chegue tempo de outra colheita.

_ Mas como foi o negócio da fazenda do Taquaraí?
_ Eu era "agregado" lá e ia labutando na grota. Certo ano tudo correu bem e as plantações ficaram a maior das belezas. O coronel passou por lá, viu aquilo - e eu não gostei da cara dele. 
No dia seguinte me "tocou" de suas terras como quem toca um cachorro, colheu as roças para ele e naquela casinha que eu havia feito, botou o Totó Urumbeva.
_ Mas não há uma lei que...
Zé Brasil deu uma risada. "Lei... Isso é coisa para os ricos. Para os pobres, a lei é a cadeia e se resingar um pouquinho é o chanfalho".

V - E se você fosse dono das terra, aí dum sítio de 10 ou 20 alqueires?
_ Ah, aí tudo mudava. Se eu tivesse um sítio, fazia casa boa, plantava árvores de fruta, e uma horta, e até um jardinzinho como o do Giusepe. Mas como fazer casa boa. 
E plantar árvores, e ter horta em terra dos outros, sem garantia nenhuma? Vi isso com o coronel Tatuíra. Só porque naquele ano as minhas roças estavam uma beleza, ele não resistiu à ambição e me tocou. E que mundo de terras esse homem tem! 
A fazenda do Taquaraí foi medida. Os engenheiros acharam mais de 2 mil alqueires - e ele ainda é dono de mais duas fazendas bem grandes, lá no Oeste. E não vende nem um palmo de terra. Herdou do pai, que já havia herdado do avô. 
E o gosto do coronel é dizer que vai deixar para o Tatuirinha uma fazenda maior ainda - e anda em negócios com Mané Labrego para a compra daquele sítio da Grota Funda.
_ Então não vende nem dá as terras, só arrenda?
_ Isso. Também não planta nada. O que ele quer lá rendeiro como eu fui, e são hoje mais de cem famílias que vivem no Taquaraí. 
Desse jeito, o lucro do coronel é certo. Se vem chuva de pedra, se vem geada ou ventania, ele nunca perde nada; quem perde são os rendeiros.

VI - _ Mas Zé, se essas terras do Taquaraí fossem divididas por essas cento e tantas famílias que já vivem lá, não acha que ficava muito melhor?
_ Melhor para quem? Para o coronel?
_ Não. Para o mundo em geral, para todos.
_ Pois está claro que sim. Em vez de haver só um rico, que é o coronel Tatira, haveria mais de cem arranjados, todos vivendo na maior abundância, dono de tudo quanto produzissem,não só a metade. 
E o melhor de tudo seria a segurança, a certeza de que ninguém dali saía por vontade dos outros, tocado como um cachorro, como eu fui. Ah, que grande felicidade! Mas quem pensa nisso no mundo? Quem se incomoda com o pobre Zé Brasil? Ele que morra de doenças, ele que seja roubado, e metido na cadeia se abre a boca para se queixar. 
O mundo é dos ricos e Zé Brasil nasceu pobre. Ninguém no mundo pensa nele, cuida de melhorar a sorte dele...

 

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